March 16, 2007 at 9:30 pm · Filed under Uncategorized
traduzimos a entrevista que o artista Vitché de São Paulo fez para revista Juxtapoz (www.juxtapoz.com)
Entrevista Vitche para revista Juxtapoz
Fevereiro de 2007

“O primeiro dia em que conheci Vitche, eu consegui fazer o que nenhum outro californiano conseguiria, eu o levei para comer um burrito.”
“Vitche não fala inglês e eu não falo português. Vitche nunca comeu um burrito, e eu como isso todos os dias. Depois de 10 minutos de conversa e sem nenhum entendimento, eu fiz o pedido para ele e percebi uma coisa: Vitche é como um super burrito do street art.” Benjamin Belsky
Benjamin Belsky: Conte-me um pouco sobre onde você nasceu.
Vitche: Eu nasci num bairro cheio de fábricas, então eu não tinha muita coisa para fazer. As crianças costumavam brincar na rua, que é uma coisa muito legal, porque com isso, eu comecei a usar minha imaginação. Nós éramos muito criativos com limitadas opções. Eu comecei experimentando e aprendendo a manusear pedaços de madeira que eu encontrava na rua, criando peças muito legais. Desde então, comecei a utilizar minha imaginação para transformar o meio ao meu redor e fazê-lo do meu jeito. Por exemplo, se tivesse um caminhão estacionado na rua, eu o transformava num submarino e a rua toda acabava virando um grande oceano.
Era sempre assim, imaginando coisas enquanto eu estava brincando.
Muitos artistas americanos de rua não são influenciados por circos, mímicas e pelo carnaval. De onde surgiu esse amor único?
Desde que eu comecei a desenhar, eu entrei em sintonia com o circo, mas não era uma coisa proposital, que eu estava indo atrás. Quando eu comecei a pintar, eu realmente estava muito ligado ao grafitti, a música hip hop e toda essa atmosfera. Mas com o tempo, eu percebi que eu precisava encontrar o meu próprio caminho. Então, comecei a analisar as coisas por vontade própria e aí que surgiu meu interesse por circos.
Quando você começou a pintar nas ruas?
Iniciou em meados de 1980. Tudo começou como uma grande brincadeira, algo que eu me sentia muito bem em fazer, naquele momento, tudo era diversão.
Eu queria transformar a minha rua, porque lá era muito sem graça e tudo muito cinza. Meus muros coloridos eram como se fosse um portal para mergulhar e explorar uma nova dimensão.
Às vezes, tudo isso era mais importante do que a minha própria casa. Era como se eu me teletransportasse naquele mundo colorido. Eu sabia o quanto as pessoas do meu bairro precisavam de cor. Minha rua não tinha uma árvore sequer e eu sempre gostei muito de verde.
Você pintava sozinho?
No começo, eu pintava sozinho. Mas depois, eu comecei a pintar com osgemeos. Nós vivíamos muito próximos,mas quando nos conhecemos, eu já fazia minhas pinturas e eles, a deles.
Como a fama dos osgemeos influenciou a arte e os artistas de são Paulo?
Quando eu e osgemeos começamos a pintar, nós fazíamos apenas aquilo que amávamos fazer. O que me fascina é lembrar dos velhos tempos, e pensar que hoje ainda continuo gostando muito de pintar. O fato de não ter nenhuma referência anterior, te faz ser quem você é.
Como você aprendeu sobre o mundo do grafitti e criar arte nas ruas?
De onde vieram essas influências?
Meu grande conhecimento veio através de filmes e livros, apesar da grande dificuldade de se encontrar livros desse gênero, naquela época. É engraçado porque antes de começar a pintar nas ruas, eu já pintava no asfalto com pedrinhas. Às vezes, fazia caricatura de algum amigo ou de alguma coisa.
E fui chegar no grafitti através dos livros. Eu já nem lembro mais de onde eu peguei esses livros, acho que foi através de amigos.
Como a cultura pop americana o influenciou?
Eu sempre fui muito receptivo com todas as culturas. Eu não queria ser cabeça dura, do tipo “eu sou assim, e pronto”. Às vezes, eu até acho que sou flexível demais, porque eu absorvo informações demais.

A sua arte de rua é para você mesmo ou para a comunidade em geral?
Para os dois. Tem dias que você se sente um pouco introspectivo e já outros, você tem vontade de se comunicar com todo mundo. Às vezes, você quer se comunicar e não consegue.
Eu ouvi dizer sobre uma produção que você fez num morro do alto de São Paulo. Você poderia me contar um pouco mais sobre isso?
Isso foi hilário, eu lembro que um dia, peguei minha pintura, sai de casa e pensei: “droga, eu preciso fazer algo diferente”. Então, fui para uma floresta e encontrei uma mina de pedras (onde as pessoas pegam pedras para construção). Não tinha ninguém lá, então eu escalei até a entrada da mina, pintei 2 olhos e voltei para casa.
Quando cheguei em casa, eu vi num jornal que aquela mina era clandestina, e eles roubavam pedras de lá. Há muitos lugares como esse, onde eles apenas entram, roubam pedras e árvores e se vão.
As pessoas pararam de roubar pedras da mina porque eles ficaram com medo dos olhos?
Eu não sei. Houve casos que eles pararam com essa prática. Uma vez, eu pintei um olho numa árvore que estava prestes a ser cortada, e especialmente aquela árvore não foi morta.
Mas já num outro dia, pintei um olho em uma árvore, num bairro de classe alta, que estava morta. Quando voltei, a árvore tinha sido cortada. Meu trabalho é assim, sempre uma nova surpresa! Uma vez, eu tinha pintado um olho num cruzamento de uma rua, onde uns brasileiros fizeram um ritual de vodoo. No dia seguinte, eles tinham deixado umas velas perto da pintura. Outro caso também, são casais tirando fotos perto da pintura.
Quais são suas influências nas ilustrações atualmente?
Como eu já disse, eu sempre fui muito receptivo para novas culturas e coisas novas em geral. Ultimamente, acho que tudo isso começou com nossos ancestrais da antiga civilização, que possuem uma profunda conexão com o planeta que foi perdido. Existem pessoas e artistas que ainda mantêm uma conexão com essa energia. Eu amo isso! Mas sobre minhas influências, eu tenho diversas, desde influências brasileiras até de outros lugares.
Explique sobre o processo de construir e esculpir suas esculturas?
Eu normalmente ando por ai de bicicleta e quando acho um pedaço de madeira, eu olho para ela e sinto sua energia. Normalmente, eles são esculpidos de forma poética em tempos pesados, no entanto, faço também peças com tema livre e sem preocupações.
Você decide o que você vai criar antes de achar o material, ou você deixa que o material determine sua arte?
Boa pergunta! A relação que eu tenho com o material, a conexão, está ficando melhor a cada dia. O material determina que direção eu devo tomar, e isso vai me guiando.
Suas ilustrações parecem como se viessem de uma perdida tribo indígena. Você estuda historia da arte?
Sim, eu estudo tudo sobre os incas, maias, astecas, ilha de páscoa, polinésia até a Amazônia. Eu acredito que aquelas esculturas possuem uma conexão com os planetas, eles dançam, participam com o planeta, andam descalços. Hoje em dia, o asfalto, o sapato… as pessoas vão perdendo essa conexão. Nós não aproveitamos esse tipo de coisa e o planeta está revoltado contra nós. A conexão foi perdida.
Existem muito dragões e pássaros nas suas ilustrações. O que esses animais representam e por quê?
Os dragões representam para mim uma grande cidade que destrói tudo. (quando eu digo destruir, eu digo o psicológico de cada um, porque você é forçado a digerir essa cidade e fazer parte dela). Eu utilizo o dragão para representar a cidade grande para relacionar ao mito que onde há um dragão branco, há sempre um dragão preto. Os pássaros representam tudo que é leve como voar ou sonhar, como se fosse uma visão panorâmica. Nesse caso, você vê a cidade de cima.
Viver na cidade me aborrece muito. Eu tenho que me manter calmo. E toda essa cor cinza e essa falta de verde me incomoda muito. Eu fico muito triste. Eu realmente preciso de verde.
É interessante porque se você analisar meu desenho você vai perceber que eu não uso muito a cor verde, por mais que eu falo muito sobre isso. Eu amo a essa cor desde que sou criança. Essa cor me traz paz, e sinto muita falta disso.
Ultimamente, eu uso muito a cor vermelha, e isto está ligado diretamente com essa falta da cor verde presente na minha vida.
A cor vermelha, preta e a branca têm um significado do jogo e do risco. É como dizer que tudo é um grande jogo.
Você tem diversas saídas criativas: pintar, esculpir, grafitti falando só algumas. Como elas se relacionam um com o outro?
Cada lugar tem a sua energia. A rua é diferente de um estúdio, que é diferente de uma galeria, que é diferente de um outro lugar. Nas ruas, você interage com as pessoas que estão apenas de passagem e eu valorizo muito isso. No estúdio, você está mais relaxado, você está de acordo com o seu tempo, ouve suas músicas e está tranqüilo. No final, todos esses elementos compõem o seu trabalho como se fosse parte de um quebra cabeça.
bus.art.br@gmail.com
March 9, 2007 at 3:28 pm · Filed under Uncategorized
Ta rodando agora o BUS, é simples: um blog que vai tentar mostrar um pouco da produção que rola no brasil, ou melhor de artistas brasileiros, seja na rua, dentro do quarto, no caderninho, nos estudios, no atelier, no computador, nas galerias, casa de shows, nas revistas em quadrinhos, baladas, por uns videos, entrevistas, traduzir matérias de revistas gringas, enfim não é nada promissor ou inovador, um blog pra qualquer pessoa entrar ver umas imagens, se informar, fazer um comentário e também participar.
abaixo um pouco de como a idéia surgiu:

ainda no papel

logotipo feito TITI FREAK (www.tfreak.com)



tipografia feita para o logo, adesivos, estampas p/ camisetas por Haroldo do SHN (www.fotolog.com/shn)
o site foi feito pelo Dimitre (http://dmtr.org/)
obrigado a todos, Haroldo & SHN, Titi Freak, Dimitre pelo apoio e a todas as “pessoas que produzem algo” que foram a base para realização deste blog.
bus.art.br@gmail.com